Carteira de motorista esbarra no psicotécnico


Pode parecer incomum, mas a probabilidade de alguém reprovar na avaliação psicológica quando vai tirar a carteira de motorista, mais conhecido como exame psicotécnico, é maior do que muita gente imagina. No ano passado, em todo o Paraná, 11% das 282.922 pessoas que fizeram a avaliação psicológica foram reprovadas. Em Curitiba, o índice é o mesmo: 8,9 mil dos 79 mil candidatos falharam no teste.

Instituído em 1975, o exame psicotécnico serve para avaliar características como controle emocional, ansiedade, impulsividade, autoconfiança, resistência à frustração, memórias auditiva e visual, controle e canalização produtiva da agressividade, iniciativa, relacionamento interpessoal, criatividade, fluência verbal e sinais fóbicos dos futuros condutores. As reprovações, entretanto, para alguns não faz sentido.

R$ 964 mil em taxas extras

Analisando o número de reprovações no psicotécnico entre 2008 e 2010, nota-se que houve uma queda acentuada nos últimos anos. No Paraná, o índice de reprovação há três anos era de 19% e, no ano passado, foi de 11%. Isso significa que 31,1 mil pessoas foram consideradas inaptas pelo teste e tiveram de desembolsar um valor a mais para refazer o exame.

Cada teste do Detran-PR custa R$ 30,99, ou seja, foram arrecadados pelo menos R$ 964,4 mil a mais. Não estão contabilizadas as taxas pagas pelas pessoas que reprovaram mais de uma vez. Nas autoescolas, o valor cobrado pelos exames é maior, chega a R$ 50 (R$ 30,99 vai necessariamente ao Detran e o restante fica para a empresa).

Reprovação

A queda na quantidade de pessoas inaptas não significa, porém, que as regras eram mais rígidas, mas sim que houve uma mudança na forma de lançamento de resultados. Anteriormente, candidatos que necessitavam de complementação de informações na avaliação psicológica obtinham o resultado “inapto temporário”. Atualmente, eles recebem o resultado “necessita nova avaliação”. A mudança ocorreu em cumprimento às normas de avaliação psicológica editadas pelo Conselho Federal de Psicologia.

De acordo com a chefe da divisão médica e psicológica do Detran, Alcileni Kazequer de Souza, não existem erros comuns entre aqueles que não passam no exame. Segundo ela, a avaliação psicológica procura verificar os critérios de processamento de informação, tomada de decisão, comportamento e traços de personalidade. “Não existem erros, mas sim dificuldades. Exemplo disso seria a falta de atenção nas orientações sobre o preenchimento do teste e a tentativa de alterar ou omitir informações aos psicólogos”, diz.

O objetivo da avaliação psicológica é colocar no trânsito pessoas em condições de conduzir de forma segura. “O ideal é que o próprio condutor perceba se tem variações de humor ou de atitudes e procure ajuda caso seja necessário”, recomenda. (GA)

Ainda na luta pela primeira habilitação, o supervisor operacional de uma empresa de segurança Alisson Souza, 27 anos, teve uma surpresa há dois meses quando viu o resultado do psicotécnico. “Eu vi na autoescola. Nem eles conseguiram me explicar o que aconteceu”, diz. Souza, que fez a prova novamente e passou, diz que não estava nervoso no dia do teste. “Eu tinha dormido bem”, lembra. Antes de fazer o psicotécnico, o supervisor conta que havia passado por uma avaliação psicológica. “Eu tenho porte de arma. Eu tive que fazer um exame psicológico muito mais completo e passei de primeira. Realmente não sei o que aconteceu”, afirma.

Para arquiteta Angelita Feitosa Rodrigues, 25 anos, o resultado negativo foi traumático. Ela fez o psicotécnico no fim do ano passado, quando tentava a primeira habilitação. “Eu já tinha feito o psicotécnico alguns anos antes, para tirar uma carteira de moto, e tinha passado. Eu sabia como seria a prova, apesar do formato ter mudado um pouco”, conta.

O que mais deixou a arquiteta frustrada foi o fato de ninguém explicar os motivos da reprovação. “Quando fiz a prova novamente, quis saber porque havia reprovado. Fiquei indignada, ninguém disse nada. Não é transparente”, afirma. Angelita foi aprovada na segunda tentativa.

Quando o estudante de Filo­sofia Gilberto de Arruda Mogash fez o exame pela terceira vez, ele achou que realmente tinha problemas. “Fiquei preocupado. Todos os meus amigos passaram na primeira e eu reprovei duas vezes. Procurei uma psicóloga e ela me tranquilizou. Fiz a terceira vez e passei”, diz.

A psicóloga especialista em trânsito Adriane Piqueto Machado diz que imagem de reprovação na avaliação psicológica é deturpada. “O que existe é um aprofundamento. Quando alguma característica, como agressividade, por exemplo, é identificada. O condutor é chamado novamente para que possam, com outros testes, investigar melhor aquela característica. E isso pode ser feito quantas vezes for necessário”, explica.

Eficácia

Para os especialistas, avaliação psicológica é importante, mesmo que ela não seja um fator determinante para evitar que acidentes aconteçam. A psicóloga Iara Thielen, coordenadora do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que no Brasil não existem pesquisas que possam comprovar que o motorista aprovado no psicotécnico vai ser um bom motorista. “A prova é apenas uma triagem, mas ela não garante um trânsito seguro.”

Para a psicóloga Adriane Machado, ainda faltam pesquisas que detalhem as características psicológicas dos motoristas que se envolvem em acidentes. Mesmo assim, ela acredita que a avaliação psicológica é vital para a segurança do trânsito. “A avaliação deveria ser feita com mais frequência, porque no decorrer dos anos as pessoas podem desenvolver problemas psicológicos graves. O porte de arma, por exemplo, a avaliação é feita de três em três anos”, diz.